Transporte Aéreo


Covid-19: Viagem de avião só em caso de necessidade

Apesar da diminuição drástica do movimento em aeroportos há quem precise encarar terminais e voos

09/08/2020 17h06

Foto: Marcelo Camargo - Agência Brasil

Decidir viajar durante uma pandemia requer coragem. Por vezes, o sentimento está atrelado ao medo e insegurança. Muitos dos que decidem se arriscar neste momento, o fazem por uma boa causa: cuidar de quem está distante e matar a saudade. Quando a mãe da estudante Millena Campello, 20 anos, recebeu o diagnóstico de Covid-19, em maio, e precisou ser internada, o coração da jovem apertou de vontade de estar em Recife (PE). “Infelizmente, tive que ficar em Brasília. Eu tinha medo de pegar a doença no aeroporto e preocupar ainda mais a minha família”, revela. Quando a mãe se recuperou, foi a vez de Millena receber a notícia de que estava com a doença. “Depois de ter o teste negativo para o vírus, ela me pediu para ir visitá-la”, lembra.

Ao embarcar, Millena viu-se surpresa ao perceber o avião com todos os assentos ocupados. “Eu esperava um voo vazio, mas a aeronave era pequena. Não tinha nenhuma cadeira vaga”, ressalta. A fila para o embarque chamou a atenção. “As pessoas não respeitavam o distanciamento. Inclusive, na hora de descer do avião, os funcionários da companhia pediam para o desembarque ser em filas, mas ninguém respeitava, e os corredores ficaram lotados”, denuncia a jovem.

Amanda Corcino, 24, sofreu com a falta de conscientização de outros passageiros em uma viagem que fez. “A pessoa que estava ao meu lado não queria usar máscara, e o comissário teve que ficar pedindo para ele colocar o tempo inteiro, mas era só o funcionário sair que o rapaz tirava a proteção”, reclama a analista de marketing. Apesar disso, o voo para visitar a família no Rio de Janeiro valeu a pena. “Meu avô paterno faleceu em maio, durante a pandemia. Infelizmente, não consegui ir ao enterro dele, mas, como ele havia sido cremado, houve uma cerimônia para jogar as cinzas no mar”, conta Amanda.

Especialistas reforçam a importância contínua do uso de máscara e álcool em gel durante todo o percurso da viagem. “O grande problema talvez nem seja dentro do avião, mas, sim, o deslocamento. A partir do momento que a pessoa não tem controle do ambiente e está em um local onde há muitas outras ao redor, fica-se mais exposta”, alerta a infectologista do Hospital Águas Claras, Ana Helena Germoglio. “Talvez, a pessoa só devesse viajar em caso de extrema necessidade e não ficar arrumando motivos ou desculpas. A recomendação é ficar em casa”, insiste a médica.

Queda e recuperação

Os primeiros registros de brasileiros infectados pelo novo coronavírus foram daqueles recém-chegados de viagens internacionais. Aeroportos e companhias aéreas foram os primeiros a adotar medidas de segurança e protocolos de higienização, como forma de prevenção da doença. Com o agravamento da pandemia no país, uma das consequências mostrou-se na redução drástica do número de voos. Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), a queda no transporte de passageiros no setor aéreo, em abril, chegou a 95%. O presidente da entidade, Vander Francisco Costa, explica que, passados quatro meses, percebe-se os primeiros sinais de recuperação. Em Brasília, o aeroporto, que chegou a ter queda no movimento de passageiros de mais de 50%, prevê aumento gradativo no fluxo de pessoas.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) também contabiliza o recuo do setor. De acordo com o presidente, Eduardo Sanovicz, em abril, a redução do volume de passageiros nos terminais chegou a 92%. “Neste cenário, operamos com 8% da malha. Hoje, em agosto, estamos chegando a 27% e temos a previsão de dobrar até o fim do ano, chegando em 60%, próximo ao Natal”, avalia. “Para isso, é necessário que melhore o cenário de combate à crise, considerando variáveis importantes: que o país tenha uma política efetiva, que a gente tenha um mínimo de estabilidade quanto às atividades econômicas e que haja o mínimo de segurança”, pondera. “Também, é preciso considerar o câmbio, uma vez que a aviação brasileira tem 51% do custo dolarizado”, acrescenta Eduardo.

A entidade preparou, aos primeiros sinais da chegada do vírus, um painel de ações adotadas para enfrentar a situação, incluindo revisão de contratos e custos e diálogos com os governos estaduais e federal. Além disso, a Abear lançou um guia de orientações para que os passageiros viajem com segurança.

No aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitscheck, a chegada da pandemia trouxe a menor movimentação de passageiros já registrada em 25 anos. Mas, a previsão é de que, a partir de julho, o terminal experimente uma recuperação. “A retomada vai continuar gradual e, na melhor das hipóteses, ela começa a se estabilizar no ano que vem. O mais provável é que, para alcançar níveis pré-pandemia, a gente deve levar, talvez, até 2024”, acredita Rogério Coimbra, diretor de Assuntos Corporativos da Inframerica, concessionária que administra o aeroporto.

Trabalho nos ares

Se fazer tarefas do dia a dia usando máscara não é tarefa simples, imagine pilotar um avião. Essa tornou-se a realidade das equipes de bordo, como uma das adoções para segurança. Mas, a maior mudança é a redução das decolagens. Rogério Albernaz, 49, comanda o Airbus A330 da Azul, o maior avião da companhia. Antes da pandemia, fazia cerca de quatro voos por mês, com destino aos aeroportos de Porto e Lisboa, em Portugal; e Orlando e Fort Lauderdale (Miami), nos Estados Unidos. “Essas duas fronteiras estão fechadas, então o avião que eu voo não está podendo ir para o exterior. Por outro lado, a demanda de carga, com o problema da pandemia aumentou, e a empresa colocou esta aeronave para ir a Manaus e Recife, como cargueiro, saindo de Campinas (SP)”, explica.

Dessa forma, o piloto paulista de nascimento, mas brasiliense de coração, tem conseguido passar mais tempo com a família no apartamento onde mora, no Sudoeste. Ele se diz otimista com o futuro. “Não tive medo (do vírus) quando vi os primeiros casos. Eu me cuido, uso bastante álcool (em gel), máscara e tento manter distância”, afrima. “Nas vezes que voei durante a pandemia, foi tranquilo. É uma guerra que estamos enfrentando e é muito difícil ficar completamente isolado em casa. Muitos falam em novo normal, mas não acredito nisso. Claro, é um grande aprendizado.”

Para o Celso Giannini, piloto chefe da Latam, o apoio da família tem sido de grande ajuda no período. “É preciso tranquilizá-los de que, ao retomar de uma programação de voo, todos os cuidados foram tomados durante a ausência e exposição ao risco. Existe uma apreensão adicional em todos, mas a compreensão e parceria quando chego em casa me motivam a continuar voando em tempos difíceis”, analisa.

Comandante do Boeing 777, uma das rotas feitas por Celso inclui a China. Entre maio e julho, o piloto participou de três operações para trazer ao Brasil cargas de milhões de máscaras protetoras. “Em média, trazíamos 70 toneladas de carga dentro das cabines, com somente 20 pessoas realizando o carregamento das caixas. Às vezes, em 50 minutos, todo o trabalho tinha sido feito. Isso colaborou para realizarmos os voos de forma pontual”, declara o piloto, que destaca o papel da aviação para transporte de insumos e profissionais da saúde.

Fonte: Correio Braziliense