21/09/2026 07h37
Rogério Sobreira, economista-chefe do Banco do Nordeste - Foto: Divulgação
A economia brasileira entrou no segundo semestre de 2026 em processo de desaceleração, mas sem sinais de ruptura da atividade. O mercado de trabalho, o crescimento da renda e um estoque de crédito ainda em expansão funcionam como amortecedores dos efeitos dos juros elevados. Esses sustentáculos, porém, começam a perder força, especialmente diante da redução do ritmo das novas concessões de crédito e do aumento da fragilidade financeira das famílias.
A avaliação faz parte do estudo “Economia brasileira e regional: entre a desaceleração e a resiliência”, apresentado em setembro pelo economista-chefe do Banco do Nordeste, Rogério Sobreira. O trabalho reúne dados do IBGE, Banco Central, Ministério do Trabalho, entre outras fontes, e dedica atenção especial às diferenças entre o comportamento da economia brasileira e a do Nordeste.
“A mensagem central é de desaceleração com resiliência. A atividade econômica perde velocidade, mas o mercado de trabalho e o crédito ainda funcionam como amortecedores importantes. Ao mesmo tempo, esses suportes começam a perder força: as concessões de crédito desaceleram e a fragilidade financeira das famílias aumenta”, diz o economista.
Segundo Sobreira, o país passa por uma desaceleração moderada. O Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre confirmou a perda de velocidade, embora tenha apresentado resultado melhor do que sugeriam anteriormente alguns indicadores de alta frequência. Pela ótica da oferta, a perda de ritmo aparece principalmente na indústria de transformação, enquanto os serviços também desaceleram.
Pela demanda, um dos sinais de maior atenção vem do consumo das famílias. O estudo identifica moderação na comparação em 12 meses e perda de tração também na margem. As exportações igualmente enfraqueceram no período analisado, movimento que o estudo associa, em parte, às tarifas aplicadas pelos Estados Unidos.
Apesar disso, os dados mais recentes mostram que a desaceleração não ocorre de maneira uniforme. Indicadores setoriais apontam alguma reação, principalmente no comércio varejista. Em julho, o varejo ampliado apareceu como o principal destaque positivo, embora o Banco do Nordeste considere que ainda seja necessário observar uma sequência de resultados para caracterizar uma retomada mais consistente.
Nordeste entra no segundo semestre com maior resiliência
No Nordeste, o cenário é relativamente mais favorável. O estudo identifica reação tanto no varejo restrito quanto no ampliado e ganho de força dos serviços em julho, comportamento diferente daquele observado para o conjunto do Brasil. A avaliação, entretanto, é de que os resultados ainda não permitem falar em recuperação disseminada da economia regional.
A diferença entre o Nordeste e o país está principalmente no ritmo recente dos indicadores. Segundo o levantamento, varejo e serviços apresentam desempenho relativamente mais favorável na região. Assim, o Nordeste chegou ao segundo semestre com sinais de curto prazo melhores do que a média brasileira.
De acordo com a análise de Rogério Sobreira, parte dessa resistência vem do mercado de trabalho. No Brasil, a combinação de baixa desocupação, crescimento real do rendimento e expansão da massa de rendimentos continua sustentando o consumo, apesar dos primeiros sinais de perda de tração do emprego formal.
No Nordeste, esse amortecedor aparece com intensidade maior, segundo o estudo. O rendimento médio real e a ocupação cresceram mais fortemente do que no Brasil, impulsionando a massa real de rendimentos. O ponto de atenção é semelhante ao nacional: a geração de emprego formal começa a apresentar menor dinamismo.
Crédito continua crescendo, mas novas concessões perdem força
O segundo pilar que ainda sustenta a atividade é o crédito. O estoque permanece em expansão, mas os dados mais recentes mostram que as novas concessões já não avançam com a mesma velocidade. A mudança é especialmente perceptível entre as famílias.
No crédito total às pessoas físicas, saldo e concessões ainda cresciam perto de 11% em 12 meses, mas a taxa anualizada das concessões em três meses havia recuado para aproximadamente 3%. Para o Banco do Nordeste, essa diferença entre os indicadores de longo e curto prazo é um sinal claro de desaceleração do crédito às famílias.
Entre as empresas, as concessões ainda registravam crescimento expressivo em 12 meses, embora os indicadores mais recentes também apontassem perda de impulso. No crédito livre, essa desaceleração das pessoas jurídicas tornou-se mais evidente ao longo de 2026.
O Nordeste apresenta uma composição diferente. O crédito às famílias desacelera de forma mais nítida, enquanto o destinado às empresas mostra um movimento recente de reação. O indicador de três meses para pessoas jurídicas avançou significativamente, embora os resultados de prazos mais longos ainda indiquem crescimento moderado.
Essa combinação leva a uma leitura de cautela: o crédito ainda contribui para a atividade econômica, mas sua capacidade de funcionar como amortecedor tende a diminuir se as novas operações continuarem perdendo força.
Inadimplência ameaça consumo e crédito
É justamente na situação financeira das famílias que o estudo identifica um dos principais riscos para os próximos meses. A piora da qualidade do crédito pode levar as instituições financeiras a adotar critérios mais restritivos para novas operações, reduzindo a capacidade de consumo das famílias.
O quadro combina endividamento elevado com juros ainda altos. Segundo a análise, o aumento do comprometimento financeiro pode alimentar um ciclo em que famílias mais endividadas enfrentam maior dificuldade de pagamento, a inadimplência cresce e o crédito se torna mais restritivo.
No Nordeste, esse risco ganha peso adicional. O estudo considera que a renda disponível mais baixa torna as famílias da região mais vulneráveis aos efeitos combinados dos juros e do endividamento. A inadimplência está em trajetória de alta tanto no Brasil quanto no Nordeste, mas seus efeitos sobre a capacidade de pagamento e, consequentemente, sobre o consumo podem ser mais intensos na região.
Surge, assim, um aparente contraste na economia nordestina: a região apresenta maior resiliência da atividade, da renda e da ocupação, mas também maior vulnerabilidade financeira das famílias. Se a deterioração do crédito avançar, ela poderá enfraquecer justamente um dos canais que vêm ajudando a sustentar o consumo regional.
Inflação melhora e abre espaço para juros menores
A inflação oferece uma sinalização mais favorável. Em agosto, o Nordeste registrou deflação de 0,46%, mais intensa que a queda de 0,32% observada no Brasil. No acumulado em 12 meses, entretanto, o quadro se inverte: a inflação nordestina estava em 4,32%, ligeiramente acima dos 4,22% registrados nacionalmente.
Outro dado acompanhado pelo estudo é o índice de difusão, que mede a proporção de itens com aumento de preços. Em agosto, ele ficou em 55,1% no Nordeste, ante 54,4% no Brasil. Isso indica que, apesar da deflação mensal, a pressão inflacionária ainda permanece espalhada por parcela relevante dos produtos e serviços pesquisados.
A melhora dos indicadores de inflação já começa, segundo o levantamento, a produzir efeitos sobre as expectativas. O Banco do Nordeste identifica um processo ainda inicial de reancoragem, favorecido pela combinação de inflação mais baixa e desaceleração da atividade.
Esse movimento amplia o espaço para flexibilização monetária, mas não significa uma trajetória rápida de redução dos juros. A avaliação do estudo é de que o balanço de riscos deverá manter o Banco Central cauteloso, com eventuais cortes da Selic ocorrendo de maneira gradual.
Petróleo, juros externos e El Niño entram na conta
Parte da cautela está relacionada a fatores externos e a choques de oferta. O estudo destaca o petróleo, pressionado pelo conflito no Oriente Médio, e registra expectativa de mercado para o barril do Brent em torno de US$ 90 ao longo de 2027. Além do impacto direto sobre a inflação, petróleo mais caro pode elevar custos de insumos importantes para o Nordeste, entre eles fertilizantes.
Os juros americanos representam outra restrição. A leitura apresentada no estudo, com base na precificação de mercado de 14 de setembro, apontava perspectiva de aperto monetário nos Estados Unidos. Juros americanos elevados reduzem o espaço para uma queda mais intensa da Selic brasileira.
Há ainda o risco climático. O El Niño já configurado em 2026 tem efeitos distintos sobre as regiões do país. Para o Nordeste, o estudo considera que os impactos sobre a safra de sequeiro do início do ano foram limitados e que os reservatórios oferecem relativa segurança à fruticultura irrigada. O risco aumenta, entretanto, no fim de 2026 e principalmente em 2027, caso o fenômeno persista.
Nesse cenário, lavouras temporárias, cana-de-açúcar, pastagens e disponibilidade de água podem ser afetadas. Menor produtividade e custos mais elevados poderiam pressionar os preços dos alimentos e comprometer o fluxo de caixa dos produtores, com reflexos também sobre o risco das operações de crédito rural.
Desaceleração sem ruptura
A leitura final do estudo é de uma economia em desaceleração, mas ainda sustentada por mecanismos capazes de evitar uma queda mais acentuada da atividade. O problema é que esses amortecedores começam a enfraquecer.
De um lado, emprego e renda continuam sustentando o consumo e o estoque de crédito permanece em expansão. De outro, as novas concessões perdem impulso, a fragilidade financeira das famílias aumenta e a inadimplência avança. Ao mesmo tempo, uma demanda menos aquecida favorece a desinflação, mas petróleo, clima e juros internacionais podem atuar na direção contrária.
O resultado é um cenário no qual a economia pode crescer menos sem que o Banco Central encontre espaço equivalente para acelerar a redução dos juros. Para o Nordeste, a fotografia é ainda mais particular: varejo, serviços, renda e ocupação oferecem sinais de maior resistência, enquanto crédito às famílias e inadimplência aparecem como pontos de atenção.
É essa combinação que resume a avaliação do Banco do Nordeste para os próximos meses: desaceleração com resiliência, mas com amortecedores perdendo força e riscos de oferta capazes de limitar uma flexibilização monetária mais rápida.
Fonte: Movimento Econômico