Entrevista

Jadlog fatura mais de R$ 1 bi em 2020 e pode comprar Correios

O presidente e CEO, Bruno Tortorello, fala da estratégia do grupo europeu de separar o negócio de encomendas do de correios

12/05/2021 21h00

Foto: Jadlog - Divulgação

Jadlog é uma das maiores transportadoras do Brasil. Inicialmente, a empresa familiar fundada em 2005 na cidade de Leme (SP) tinha foco no B2B, ou seja, de empresas para empresas. No fim de 2016 ela foi vendida para o DPDgroup. Trata-se da segunda maior rede de entregas da Europa e pertence ao grupo La Poste, o correio francês.

Assim, o B2C (empresa para o consumidor final) passou a ganhar relevância nas operações da Jadlog. Essa expertise em logística fracionada rendeu bons frutos à companhia. Tanto que em 2020 a empresa faturou mais de R$ 1 bilhão. O melhor resultado de sua história.

Além disso, superou 40 milhões de encomendas entregues. Em entrevista exclusiva ao Estradão, o presidente e CEO da Jadlog, Bruno Tortorello fala sobre essa evolução. Segundo ele, a estratégia do grupo europeu de separar o negócio de encomendas do de correios foi muito acertada.

Aliás, Tortelllo não esconde o interesse pela empresa pública. Isso, evidentemente, se houver mesmo um plano de privatização. Confira a íntegra da entrevista.

O fato de o DPDgroup entrar na América Latina pelo Brasil tem relação com o potencial do País?

O Brasil é o maior consumidor da América Latina. Por sua vez, o DPD busca mercados com potencial relevante de crescimento, para fortalecer as operações cross border (além das fronteiras). Por isso, vem fazendo aquisições em vários países.

O potencial de crescimento do comércio eletrônico no Brasil é muito grande. Na comparação com alguns países europeus ou com os Estados Unidos, o volume de negócios nesse segmento ainda é baixo. Tanto que devemos crescer entre 7% e 8% no varejo pós-pandemia. Se o DPD quer avançar na América Latina, tem de começar pelo Brasil.

E por que o DPD escolheu a Jadlog?

Quando começou a prospectar o mercado, o DPD conversou com várias empresas, tanto do B2B quanto do B2C. Mas, por característica, a empresa é híbrida, atua com frete fracionado nos dois segmentos por meio do e-commerce.

Assim, no Brasil a Jadlog era uma das poucas empresas que operavam da mesma forma. Logo, embora fosse mais forte no B2B, a Jadlog cobria bem o B2C, apresentava bom potencial de crescimento. Em 2016 nosso faturamento já era bastante representativo na comparação com outras companhias que estavam ingressando na área.

Estar sob o guarda-chuva do DPD ajudou a Jadlog a ‘virar a chave’ para o mundo digital?

Sim, sem dúvida. Tanto que de 2017 para cá quadruplicamos nosso volume de operações. Como resultado, o faturamento em 2020, de mais de R$ 1 bilhão, foi recorde.

Conseguimos antecipar uma meta prevista para 2023. A pandemia trouxe um amadurecimento digital. O mercado mudou drasticamente. Quem já comprava pela internet passou a comprar mais. E quem não comprava teve de se adaptar. O Ebit estima que 13 milhões de novos consumidores passarão a utilizar o comércio eletrônico apenas em 2021.

O sr. acredita que as empresas tradicionais adotarão o sistema híbrido para crescer?

É muito difícil atuar com B2B e B2C utilizando a mesma estrutura. Seria preciso haver visões diferentes dentro do mesmo negócio. E ao mesmo tempo, fazer essas áreas coexistirem. Portanto, há poucas empresas que conseguem equilibrar isso.

Não acredito que tentar adotar esse sistema seja uma receita para o sucesso. Cada um pode ser notável naquilo que faz. Da mesma forma, a cultura enraizada na empresa tende a limitar tentativas de alçar novos voos.

Mas a Jadlog conseguiu equilibrar bem as duas operações e crescer…

Sim, é verdade. O B2C representa mais de 70% dos negócios. Segundo dados da Abcomm, somos a empresa privada mais utilizada pelas companhias de e-commerce do Brasil. Movimentamos mais que o dobro do volume do segundo colocado.

Em síntese, isso é resultado da nossa capilaridade. Em outras palavras, nossos franqueados são mais do que entregadores. São também vendedores de serviços.

Temos mais de 40 mil clientes espalhados pelo País. E boa parte deles é atendida por nossos franqueados. Nossa carteira de clientes inclui empresas como Mercado Livre, Amazon, Via Varejo e Magazine Luiza, entre outros.

O que foi mais determinante para que a Jadlog chegasse a R$ 1 bilhão de faturamento em 2020?

Acima de tudo, vínhamos investindo na melhoria da qualidade dos serviços, bem como no atendimento de grandes clientes. Estávamos bem posicionados quando a pandemia começou. Conseguimos atender a alta na demanda gerada pelos grandes clientes.

A Jadlog conquistou muitos novos clientes regionais por meio dos franqueados. Como resultado, crescemos mais que o dobro da média do mercado.

Ao mesmo tempo, fizemos investimentos em automação e mecanização de hubs, assim como na infraestrutura e na ampliação da frota. Foram aplicados mais de R$ 30 milhões.

Então a infraestrutura também cresceu?

Sem dúvida. Dobramos a capacidade de processamento diário de encomendas na matriz, em São Paulo, como também inauguramos hubs em Joinville (SC) e Salvador (BA).

Ao mesmo tempo, praticamente dobramos a estrutura de nossas 17 filiais espalhadas pelo País. Bem como antecipamos a compra de 20 caminhões trucados.

Como a digitalização melhorou os processos de entrega?

Todas as nossas entregas na última milha são feitas com o apoio de um aplicativo próprio. Logo, conseguimos fazer um sequenciamento da operação. O entregador pode até dar a baixa de modo eletrônico.

Com isso, todas as informações são atualizadas em tempo real. Estamos investindo na melhoria do atendimento para o destinatário.

O cliente pode rastrear a encomenda em tempo real e falar com a empresa por meio de chatbot (robô). Se for preciso, ele será encaminhado a um chat humanizado. Também oferecemos o método tradicional, por telefone.

Ao mesmo tempo, continuamos investindo na digitalização. Estamos colocando inteligência em todos os nossos processos.

O que a Jadlog fez para se adaptar às mudanças impostas pela pandemia?

Inicialmente, a pandemia foi traumática. Ninguém sabia exatamente o que fazer. Bem como não havia ideia da duração e dos impactos no negócio.

Assim, adotamos todas as medidas de segurança recomendadas, ligadas aos cuidados com a higiene e o distanciamento social.

Ao mesmo tempo, lançamos o Fundo Jadlog Covid-19 que arrecadou mais de R$ 500 mil. Conseguimos beneficiar cerca de 4 mil pessoas ligadas à rede franqueada. Dessa forma, apoiamos os franqueados, que são empresários de pequeno e médio porte.

Nesse interim, de abril até o fim de julho, aumentamos em 75% as rotas de última milha. Quase triplicamos nossas linhas de transporte. Parecia ser uma enorme black friday.

Os segmentos mais pujantes foram eletroeletrônicos, itens de esporte, para animais e os básicos. Porém a euforia acabou.

Nos três últimos meses de 2020 o consumo começou a cair. Isso foi resultado dos impactos da desaceleração na economia.

A longa duração da pandemia poderá atrasar a programação de investimentos?

A Jadlog está vivenciando um nível alto de crescimento. A comparação é com os três primeiros meses de 2020, com o período de pré-pandemia. Seja como for, o mercado está maior, mas não tão pujante como no ano passado. O nível de confiança está caindo.

As pessoas estão em casa, mas não vêm consumindo tanto quanto consumiram nesse mesmo período de 2020. Ao mesmo tempo, houve aumentos importantes nos preços de insumos como combustíveis e plástico. Bem como no da cesta básica. Porém, apesar desse cenário, estamos bem porque tivemos um importante ganho de escala em 2020. Vamos crescer neste ano, porém, menos do que em 2020.

A questão é que essa pressão de alta dos custos vai inviabilizar alguns negócios. O desafio será não repassar esse aumento aos clientes. Dessa forma, pode haver impacto em nosso resultado final. Mas mantemos expectativas ambiciosas. Vamos crescer entre 20% e 30% em 2021. Nossa boa capilaridade e a implementação de soluções inovadoras vão garantir esse crescimento.

Que soluções inovadoras são essas?

Em alguns países da Europa, as entregas out of home (fora de casa, em tradução livre, mas, nesse caso, seria algo como fora do convencional) representam cerca de 35% das operações de e-commerce. Há duas grandes verticais. Uma é o locker (como armários em estações de metrô) e a outra são pontos de conveniência.

O locker é mais conhecido no Brasil, mas ainda não decolou. No ponto de conveniência o usuário pode retirar uma encomenda, bem como fazer a postagem reversa. Até mesmo um embarcador pode postar um produto diretamente.

Esses locais podem ser os mais diversos, uma cafeteria ou livraria, por exemplo. De todo modo, no Brasil essas soluções representam menos de 5% das operações. Estamos trabalhando para ampliar a oferta desse tipo de entrega.

E como está o andamento desse processo?

Lançamos a opção de entregas em pontos de conveniência em 2018. Somos pioneiros no Brasil. Da lista de mais de 100 clientes, fazem parte empresas como Renner, Carrefour e Camicado, por exemplo. É preciso ressaltar que há pessoas que não compram pelo e-commerce justamente porque têm dificuldade para receber encomendas em domicílio. Algumas ficam pouco tempo em casa e outras residem em áreas onde os serviços de entrega não operam.

Enxergamos um grande potencial de crescimento desse serviço. Para o cliente há a vantagem do prazo de até sete dias para retirada. Ele pode ir num horário que seja mais conveniente. Para o operador, isso elimina o risco de fazer a viagem, mas não concretizar a entrega. Esse sistema é de 20% a 30% mais barato que a entrega em domicílio.

Será uma alternativa para a oferta do frete grátis. Esse sistema vai ganhar relevância, principalmente no pós-pandemia. É uma solução mais sustentável. Dá para fazer várias entregas em um único ponto. Deixa de ser preciso e passar por vários endereços.

A Jadlog tem interesse nos Correios, caso a estatal seja incluída em um plano de privatização?

O controlador do grupo do qual a a Jadlog faz parte é o correio da França. Sabemos fazer os serviços feitos pelos correios. Então, seria até irresponsável não avaliar a possibilidade de compra caso haja essa oportunidade.

Seja como for, a gente cresceu muito nos últimos três anos de maneira orgânica. Logo, não está descartada a hipótese de crescermos de maneira inorgânica, comprando outras empresas. Temos alguns estudos visando a expansão. Seja de maneira inorgânica ou por meio de parcerias estratégicas.

Publicada no Estadão