12/01/2026 06h01
Foto: Divulgação
*Os portos brasileiros movimentaram 1.320 milhões de toneladas de cargas em 2024. Ou seja: 3,7 vezes mais que as 355 Mt no ano em que Dr. Ulysses Guimarães promulgou a “Constituição Cidadã” (1988); um crescimento anual médio de algo como 3,7% ao longo dessas três décadas e meia. Já em valor esse crescimento foi um pouco menor, apesar de ainda assim exibir números expressivos: a corrente de comércio, em valores constantes (2024), cresceu 2,8 vezes: de cerca de US$ 152 (61 nominais) para US$ 425 bilhões. ,
Esses indicadores ganham ainda maior relevo quando lembrado que tal período foi meio que sincopado: a economia brasileira enfrentou alguns solavancos, entremeados a períodos de crescimento relevante, como p.ex, a crise da dívida externa, hiperinflação, Plano Real, crise do Subprime, pandemia da Covid (as duas últimas como parte do contexto internacional).
Dois aspectos merecem destaque nesse conjunto de dados:
Certamente a chamada globalização, novos arranjos nas cadeias produtivas e de suprimento, desenvolvimentos tecnológicos em diversas frentes (com destaque para genética e TI), rearranjos geopolíticos estão entre os principais vetores/motores desse processo e desenvolvimento. Mas ele não pode ser explicado sem que nesse rol se inclua a transformação pela qual passou a logística brasileira (infraestrutura e gestão); algo nem sempre percebido e/ou valorizado.
O crescimento da movimentação portuária (3,7 vezes) só foi possível porque suas capacidades foram se ajustando e acabaram dando conta do recado; não parece óbvio? Isso foi observado em praticamente todos os portos, além de alguns novos que foram implantados. Mas vale destaque para o Porto de Santos: passou de 25 Mt para 180 Mt nesse período; ou seja, 7,2 vezes mais (média anual de 5,5%de crescimento).
Por sua vez, se foi movimentado nos portos, em princípio a carga chegou/saiu por algum modo terrestre (dado que “transhipment” era incipiente, e ainda o é percentualmente pouco relevante entre nós): pelo rodoviário, o principal no Brasil. Bem, se sua malha federal cresceu “apenas” 30% (de cerca de 50 para 65.000 km) entre 1988-2024, sua capacidade foi significativamente impactada pela evolução dos trechos duplicados: 8 vezes (de 1.600 para 12.800 km). A paulista, alimentadora do Porto de Santos, ainda mais: 9,3 vezes (de 600 para 5.600 km).
Tanto no plano federal como estaduais, SP em particular, essas transformações ganharam grande impulso com reformas estruturantes em todos os setores, com destaque para maior presença do setor privado, por meio de concessões e PPPs (no caso dos portos, arrendamentos e autorizações); a saber: reformas portuárias a partir de 1993; concessões rodoviárias (federais: estudos a partir de 1993 e contratos de 1995; estaduais, 1998); ferroviárias (federal, 1996, e malha paulista em 1998).
Vale destacar nessas transformações:
Olhando à frente
Comércio exterior é, apenas, parte do escopo/desafios da logística brasileira: numa perspectiva estratégica não é possível desconsiderar-se o abastecimento interno. Assim, além dos granéis/commodities, há também carga geral (contêineres, incluídos) e cargas de projeto.
Logística não é apenas infraestrutura viária, visão reducionista amplamente difundida: de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, envolve, também, infraestrutura de transporte, serviços de transporte, infraestrutura associada (armazenagem, p.ex), serviços associados (consolidação de cargas, p.ex), distribuição espacial (principalmente nas regiões urbanas), alfândega, segurança (patrimonial e humana), sistema tributário, articulação intermodal (física, operacional e institucional).
Assim, para o bem ou para o mal, parodiando Belchior/Elis Regina, “apesar de termos feito tudo que fizemos....” o Brasil segue enfrentando gargalos em vários segmentos de suas cadeias logísticas. E, certamente, em havendo um novo ciclo de crescimento econômico acelerado, algo no imaginário da maioria da sociedade brasileira, certamente esses gargalos acentuar-se-ão. Daí porque a necessidade da nossa logística ser repensada para os próximos 10, 20, 50 anos, ou até para o final deste século: intervenções pontuais, localizadas, podem ter resultados limitados!
Tais transformações, porém, devem ir além das capacidades, dos volumes: há demandas e condicionantes qualitativos já postos, e que deverão se acentuar doravante. Três se destacam, e valem como subsídio para a uma agenda consequente:
Grandes desafios já de per si. Compatibilizá-los, maior ainda. Viabilizá-lo, então, é algo que tem parecido cada vez mais difícil no Brasil.
O Governo Federal trabalha, atualmente, na elaboração do PNL/2050, balizado pelo Decreto nº 12.022/2024: ele define ser o plano nacional (não apenas federal); abrangendo pessoas e bens; deve ter visão territorial e dinâmica integrada; ser focado na competitividade nacional, desenvolvimento regional e integração nacional. E uma importante inovação: ter metas e indicadores que permitam o monitoramento e avaliação de resultados. Em síntese: ele deve ser inter-modal; inter-funcional; inter-institucional e monitorável.
O Decreto é, assim, um bom ponto de partida e balizador para a definição do “o que” é necessário e deveria ser feito doravante para a logística brasileira.
Mas, para que não seja mais um plano que fique só no papel (ou PPTs), só nas (boas) intenções, seria igualmente desejável que o PNL/2050 também inovasse contemplando ao menos algumas diretrizes do “como” fazer (ainda que a serem desenvolvidas em instrumentos complementares): como em termos de maior previsibilidade e celeridade de autorizações e licenciamentos; como no que concerne a fontes/financiabilidade dos empreendimentos; como em termos de capacidade industrial e construtiva; como no tocante a mão de obra qualificada; como no tocante a garantia de qualidade; como no tocante a compartilhamento e mitigação de riscos; como no tocante à governança.
Parodiando marca esportiva famosa: “just do it”!
Frederico Bussinger – Engenheiro, economista e consultor. Foi diretor do Metro/SP, Departamento Hidroviário (SP), e da Codesp. Também foi presidente da SPTrans, CPTM, Docas de São Sebastião e da Confea.
Publicado originalmente na revista “Política Democrática” nº 65 (17/DEZ/25)
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