03/03/2026 09h43
Foto: Ilustrativa
O Irã fechou, ontem, o Estreito de Ormuz, uma das principais hidrovias para o transporte de petróleo no mundo, após escalada em confronto contra os Estados Unidos e Israel. A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que irá incendiar qualquer navio que tentar passar pela única saída do Golfo Pérsico para o mar aberto.
"Qualquer navio que tentar passar pelo Estreito de Ormuz será incendiado", afirmou o brigadeiro-general Ebrahim Jabbari em declarações divulgadas pela imprensa iraniana. "Também atacaremos oleodutos e não permitiremos que uma única gota de petróleo saia da região", disse ele, acrescentando que "os preços do petróleo chegarão a US$ 200 nos próximos dias".
O Estreito de Ormuz, entre a Península Arábica e o Irã, é considerado vital para o comércio mundial, principalmente para o transporte de petróleo.
A declaração veio após os Estados Unidos darem indícios, na tarde de ontem, de que vão ampliar seu envolvimento militar na guerra contra o Irã. Na Casa Branca, o presidente Donald Trump afirmou que uma grande onda de ataques contra Teerã está por vir.
Analistas apontam que os preços do barril de petróleo podem subir para uma faixa de US$ 80 a US$ 100 em meio aos desdobramentos das tensões entre os Estados Unidos e o Irã.
No Brasil, a Petrobras informou que possui rotas alternativas à região do conflito entre Estados Unidos e Irã. Em nota, a estatal disse que isso "dá segurança e custos competitivos para as operações da companhia, preservando as margens". Segundo a empresa, os fluxos de importação da Petrobras são majoritariamente fora da região de crise e as poucas rotas que existem podem ser redirecionadas. A Petrobras reforçou também que não há risco de interrupção das importações e exportações no momento.
Antes mesmo do anúncio feito pela Guarda Revolucionária, na segunda-feira (3), o petróleo brent registrava forte valorização. No pico do dia, a commodity avançou mais de 13%, chegando a US$ 82 o barril. Ao fim do dia, fechou a US$ 77,74 o barril, com alta de 6,68%.
Dólar e Bolsa
Na primeira sessão após os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, o dólar fechou cotado a R$ 5,164, alta de 0,6% e interrompeu uma sequência de queda, quando, na sexta-feira, atingiu R$ 5,12 — o menor valor desde maio de 2024. No exterior, o índice DXY, avançou 0,78%, aos 98,37 pontos.
O principal índice da B3, Ibovespa, fechou com alta de 0,28%, aos 189.307 pontos, revertendo parte das perdas registradas no início do pregão.
Para Matheus Portela, economista e diretor de Gestão da VLGI Asset, o conflito pode afetar a economia global, além do setor de energia. "Um eventual fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do fluxo global de petróleo e gás, pressiona rotas alternativas e encarece o frete para diversos produtos. Conflitos bélicos também elevam prêmios de seguros para cargas e embarcações", afirmou.
Segundo ele, o aumento de custos logísticos e energéticos tende a se espalhar pela economia. "Com transporte e energia mais caros, há repasse para preços e aceleração da inflação. No Brasil, o impacto direto é a retomada da pressão inflacionária em um momento em que o Banco Central sinaliza início de cortes de juros", disse.
Para Davi Lelis, economista e sócio da Valor Investimentos, o conflito representa um choque geopolítico que altera a percepção de risco. "O que estamos vendo é uma escalada que eleva o prêmio de risco internacional. Em ambientes assim, investidores reduzem exposição a ativos mais voláteis e aumentam posição em dólar e ativos considerados portos seguros. Isso pressiona o câmbio no Brasil", afirma.
Lelis acrescenta que o impacto sobre a bolsa é menos linear. "O Ibovespa tem composição relevante de empresas ligadas a commodities. Com o Brent saindo da faixa de US$ 60 para US$ 78, empresas de energia e exportadoras são favorecidas, o que ajuda a sustentar o índice", declarou.
Ele citou movimentos distintos entre setores. "Há ações de petróleo e energia em alta, enquanto empresas de construção, consumo e setores mais sensíveis ao risco registram queda. O resultado agregado é um índice próximo da estabilidade", afirmou.
O economista ressaltou que a duração do choque será determinante. "Se for temporário, o impacto tende a ficar concentrado no curto prazo. Mas, se o petróleo permanecer elevado por período prolongado, pode contaminar expectativas de inflação e alterar o ritmo de política monetária no Brasil", disse.
Fonte: Correio Braziliense