Entrevista

'Na pandemia, empresas aéreas terão de se reinventar', diz Jerome

Para o CEO da Latam Brasil o desafio do setor é 'planejar sem conhecer o futuro' e 'baixar custo sem prejudicar o passageiro'

06/05/2021 18h00

Foto: Divulgação

A pandemia fez grandes estragos por todos os lados, mas poucos setores na economia vivem situação tão difícil quanto o das empresas aéreas. Para começar, seu cliente preferencial, o chamado passageiro corporativo, quase desapareceu - e ele respondia por 60% ou até 70% da receita. Além disso, é difícil cortar custos; e o planejamento, quase todo de médio e longo prazos, fica inviável numa hora em que ninguém consegue programar nem sequer o próximo semestre.

Esse é o Brasil-2021 do engenheiro Jerome Cadier, que chegou à Latam Airlines Brasil em 2013 e se tornou, em 2017, o CEO da companhia. "A gente está realmente se reinventando nessa pandemia", diz ele nesta entrevista para a série Cenários. E o que é reinventar-se? É descobrir como buscar um novo caminho sem saber bem em que direção, "pois esse mercado nunca mais vai voltar a ser o que era antes".

Negociar com a indústria aeronáutica, sobre comprar ou devolver aviões, por exemplo, não é para amadores. Às vezes, é uma encruzilhada onde é preciso dizer coisas como "Ou eu te devolvo o avião e não pago nada ou tento fazê-lo voar e pago por hora de voo". Proposta que Cadier define como "mudança de paradigma".

Ainda assim, ele acredita que o volume de passageiros "deve voltar aos níveis de 2019 lá por 2022 ou 2023". O dilema, até lá, "é operar a um custo mais baixo, sem que o passageiro sofra por isso". Otimista, apesar de tudo, o CEO acha que a equipe "está aprendendo com a crise e vai sair melhor do que era quando entrou". A seguir, os principais trechos da conversa.

As empresas aéreas, em especial as do Brasil, têm feito muitas coisas para sobreviver e ajudar. Pode contar algumas dessas coisas?

A gente está, realmente, se reinventando nessa pandemia. Acho que apesar da crise que o setor enfrenta, o turismo em geral, não só no Brasil, tem feito muito para ajudar. Mesmo com a dificuldade para voar, mesmo com muito poucos passageiros, com dificuldades financeiras, as empresas estão transportando as vacinas de graça, os profissionais de saúde também, fazendo os insumos, os respiradores, os remédios, os cilindros de oxigênio chegarem onde é necessário. Acho que é uma reinvenção do setor, sabendo das novas realidades e do seu papel neste momento.

Vocês estão trabalhando hoje com 10% do que faturavam antes. Como se trabalha com essa queda drástica de faturamento?

Acho que a gente enfrenta duas crises neste momento. A primeira é quando o passageiro desaparece. Tem pouca venda, a pressão no caixa é gigante, a gente enfrenta isso desde o primeiro momento. O outro desafio é de longo prazo, pois mesmo se o mercado retomar o ritmo vai ser diferente. Esse mercado nunca vai voltar ao que era antes. E para isso há duas razões. Primeiro, a gente vê desaparecer o passageiro corporativo, que responde por 60% ou 70% do resultado financeiro das aéreas no mundo inteiro. Se voltar, será em menor escala. A segunda razão é que, como todo o volume de passageiros caiu, tem um excesso de capacidade e a pressão por preço será violentíssima nos próximos anos. Enfim, essa transformação do setor é enorme e deve durar por muitos anos depois da pandemia.

Esse é um setor difícil, o investimento é altíssimo... Por que empresários gostam dessa área? É o sonho de voar?

Pode ser o sonho de voar. Mas a gente sempre teve no setor uma aposta de crescimento. Voar de avião era uma coisa rara no passado. Hoje é comum e em função disso há uma aposta no crescimento. Ele vem crescendo de forma brutal. Dou um exemplo: aqui no Brasil a quantidade de passageiros multiplicou por três entre 2002 e 2019. E, mesmo assim, o brasileiro ainda voa pouco, comparado com o chileno. Americano ou europeu, então, nem se fala.

A indústria toda do setor precisa de um planejamento muito detalhado, e nessa pandemia não tem como. De que forma é feito esse planejamento?

Essa é uma das nossas grandes dificuldades. Decisões sobre compra de aviões, treinamento de pessoal, criação de um novo voo são tomadas às vezes com anos de antecedência. No entanto, hoje, a nossa capacidade de planejar o mês que vem é quase nula. Em dezembro passado, nossos voos domésticos davam 80% do que a gente voava em 2019. Hoje dão 35%. Ou seja, tivemos um aumento no segundo semestre de 2020, aí engatamos uma marcha à ré e agora esperamos que o crescimento volte em meses. Mas nossa capacidade de acertar o planejamento é zero. Por isso, temos agora de ter uma empresa muito mais flexível do que ela era antes.

Uma empresa que fabrica novos aviões tem de planejar um aparelho para um mercado cujo tamanho futuro ela desconhece. Ou vocês fazem um leasing não sabendo para onde vai o mercado. Como vocês negociam isso?

Foi todo mundo atingido. Quem fabrica aviões e quem faz leasing. O que fizemos foi sentar, conversar. Se eu voar ou não com aquele avião, eu vou ter de pagar por ele. Uma das grandes mudanças foi começar a pagar por horas de voo. Ou seja, a gente tornou variável um custo que antes era fixo. Isso permite ajustar o tamanho da frota ao que se precisa. É uma grande mudança de paradigma. Tivemos de nos sentar com os donos dos aviões e dizer: "Ou eu devolvo o avião e não pago nada ou pago por hora de voo".

Como são hoje os procedimentos, desde a chegada do passageiro ao balcão até ele deixar o avião?

O setor aéreo percebeu logo que precisava oferecer um ambiente seguro para o passageiro e para as tripulações. Quando pouca gente ainda falava de máscara, em abril passado, tomamos a decisão de pedir a todos os passageiros para ficarem de máscara o tempo todo no voo, a Latam foi a primeira a fazer isso. Desenvolvemos equipamentos de luz ultravioleta para matar os vírus e bactérias. Fizemos o processo nos aeroportos ser mais espaçado, com mais balcões. E aumentamos os recursos digitais para que as pessoas não precisassem, fisicamente, manusear coisas ou falar com pessoas no aeroporto.

Uma mudança de peso, não?

A gente repensou toda a forma de tratar o passageiro, desde que entra até quando sai do aeroporto. Dentro dos aviões, o sistema permite que o ar se renove a cada três minutos, com filtros que eliminam 99% das bactérias e vírus. Posso lhe dar um dado? Os tripulantes a bordo contraíram menos o vírus do que outras pessoas que não estão voando. Vemos pessoas contraindo o vírus mais entre amigos, no convívio familiar, do que num avião.

Diante desses desafios todos, o que os governos poderiam fazer?

Mundialmente, essa combinação de passageiro corporativo voltando em menor escala, e o excesso de capacidade fazendo os preços caírem, vai exigir um custo operacional menor para as companhias aéreas. Os governos poderiam ajudar tornando mais eficiente a operação das empresas. Por exemplo, aqui temos o combustível aeronáutico mais caro do mundo, por causa dos impostos. Tem de rever essa carga tributária. Veja o Chile, lá não existe o ICMS sobre a aviação. E isso faz sentido porque o que interessa é que o passageiro viaje. Quando viaja ele aluga carro, paga hotel, vai a um evento e gasta com alimentação, compra produtos. Se você taxa, o cidadão não viaja e não gasta nada.

Tivemos concessões e novos aeroportos vão ser construídos. Qual a maneira de atrair de volta os passageiros, mesmo com máscara e tudo?

A gente vai voltar ao que transportou em 2019 e crescer além, não tenho dúvida. E vai ser num patamar de preço mais baixo. As empresas vão ter de se reinventar para oferecer um preço menor, operando a custo menor. E tem outra coisa, a gente precisa entender que os efeitos da evolução digital e tecnológica devem vir mais. Acho que essas três coisas - tarifa mais baixa, voar de forma mais fácil e melhor relacionamento via ferramentas digitais - são as três alavancas que vão fazer o setor voltar forte.

A concorrência no setor é grande. Houve alguma cooperação, diante dos atuas desafios?

Não houve. Cada uma das empresas tomou suas decisões, de manter ou não determinada rota. Aí as operadoras viram que estavam perdendo dinheiro, o número de voos foi alterado. O que se viu foi uma competição acirrada. Houve um momento, semanas atrás, em que você comprava uma passagem de ponte aérea por R$ 22. Não paga a taxa do aeroporto, não paga nem o estacionamento do avião.

Em termos de investimento, de ampliação da empresa, o que vocês têm em mente no momento?

Acreditamos que o volume de passageiros de 2019 deve voltar em 2022 ou 2023. E a nossa empresa, até aqui, reduziu o tamanho da frota e a quantidade de colaboradores, está se transformando para ser mais competitiva, apesar de menor. A gente sabe que precisa de uma empresa mais flexível, que se ajuste rápido às mudanças da demanda. Esse é o dilema, operar a um custo mais baixo, sem que o passageiro sofra por isso. Mas a gente está aprendendo com a crise, e vai sair melhor do que era quando entrou.

Publicado no Terra