Entrevista

Rescaldo das queimadas pode parar em rios e lagos

Leia a entrevista com o toxicologista ambiental e pesquisador Eduardo Cyrino

17/01/2021 20h00

Foto: Divulgação

Depois das queimadas que acinzentam o verde, matam animais e agonizam pessoas, restam as cinzas, remanescentes da vegetação morta onde os compostos químicos das antigas plantas apresentam uma concentração acima do usual. “Os efeitos das cinzas das queimadas na água duram até um ano”, diz o toxicologista ambiental e pesquisador da Embrapa, Eduardo Cyrino, que estuda os impactos -  pouco debatidos, conta ele - das cinzas nos ambientes aquáticos. 

A principal fonte de dispersão das cinzas é a chuva, que leva os compostos químicos para fontes subterrâneas, como lençóis freáticos, cuja água será consumido por humanos, e para lagos e rios, onde desequilibram o PH, diminuem a oxigenação - o que prejudica espécies que dependem de oxigênio - e a pureza da água.

Um dos derivados das cinzas pode ser o nitrito, substância comprovadamente cancerígena. As alterações foram comprovadas durante uma pesquisa que analisou mostras de água de locais queimados, na região de Planaltina, no estado de Goiás, entre 2010 e 2015, cujos resultados começaram a ser divulgados em 2016 e até hoje são apresentados. 

O Brasil registrou, em 2020, uma série histórica de queimadas. O Pantanal apresentou o maior número de incêndios da história. Na Bahia, incêndios na Chapada Diamantina e no Oeste baiano, região do Cerrado, também acenderam o alerta da população e dos pesquisadores. 

“O que acontece com a água aqui [do Cerrado] influencia a área de vários estados, inclusive a Bahia”, diz Eduardo, sobre os incêndios no oeste brasileiro. No Cerrado, nascem três das principais bacias hidrográficas sul-americanas, como a São Francisco.

Durante entrevista ao CORREIO, Eduardo explica como as cinzas agem no ambiente aquático, quais são suas características e ações, de que forma a água ingerida por nós pode ser contaminada, quais os riscos e como, por exemplo, as pesquisas ainda não têm monitorado, tanto quanto necessário, os impactos. Confira na íntegra:

Depois que o fogo é apagado, como as cinzas começam a agir no meio ambiente? 

A cinza, na verdade, é um resultado do concentrado da planta queimada. As plantas são formadas por uma série de compostos químicos, e quando são queimadas, os compostos ficam ali, concentrados. No solo, os compostos ficarão durante um tempo. Quando bater um vento, pode causar alguns problemas de respiração [nos humanos], mas mais para quem está próximo. O problema maior [para a água] será quando a chuva cair, porque essa cinza será transportada para o rio, ou para o subterrâneo. O movimento dessas cinzas para a água depende principalmente dessa precipitação. Existem alguns elementos químicos presentes nas cinzas - o fósforo, o potássio, compostos nitrogenados, principalmente o nitrato - que podem ser tóxico para algumas espécies.

Um dos produtos que podem surgir dessa degradação é o nitrito, que é muito tóxico. O que vocês analisam em relação a essa  toxicidade?  

Um dos derivados da queimada é o nitrogênio, que, na sua forma de gás, é muito volátil. Quando ele sofre transformações químicas, surgem outros compostos. O nitrogênio, por exemplo, é composto por nitrato. Há também o nitrito, considerado para os seres humanos, o mais problemático. Não chegamos a identificar nitrito no nosso trabalho. Mas se tem nitrato pode ter nitrito, por causa dessas transformações químicas. Como não achamos o nitrito, fica a possibilidade [de existir a conversão]. Existe muito material científico sobre o nitrito, que fala das propriedades cancerígenas. É considerado uma substância carcinogênica. Não dá para dizer que cinza vai causar câncer, claro. Até porque ele é decorrente de uma continuidade da exposição.

Quanto tempo o ambiente ainda fica sujeito à ação dessas cinzas? 

Em rios que têm movimentação maior, ou seja, o fluxo de água é mais intenso, isso pode não ter um impacto tão grande, porque geralmente o fluxo dilui os compostos. Em ambientes de águas mais paradas, como lago, açudes, o impacto pode ser maior. Em quanto tempo ficaria nesses ambientes, em água de lago ou rio? Não há pesquisa que mostre isso. Mas, quando a cinza chega na água, muda alguns parâmetros dela: o PH vai aumentar, por exemplo. No Cerrado, fica mais alcalino.

A pureza da água também será afetada. Um outro aspecto: a presença da cinza na água diminuirá o oxigênio dissolvido na água o que pode causar prejuízos a espécies que dependem de oxigênio, como alguns peixes e plânctons. Claro que os peixes têm uma facilidade, que é a de nadar.  Mas os bichinhos bem pequenininhos não conseguem sair tão rapidamente desses locais. Os efeitos de alterações provocadas pelas cinzas na água permanecem durante até um ano, um ano em meio. 

O estudo também observou a contaminação de águas subterrâneas pelas cinzas. Como isso chega até lá? 

Essa água de poço atingida por cinza pode ser a mesma água que o camarada vai tomar na casa dele. Uma das lições que a gente deixa é que: se você tocar fogo naquela área ali, seu poço pode ser contaminado. Você está tirando água do poço e bebe, é natural.  Isso pode, naturalmente, causar pelo menos não um efeito tóxico imediato nas pessoas, mas causar um gosto ruim na água, no mínimo.

Corremos riscos de beber água contaminada por cinzas, então? 

Quando a gente começou esse trabalho, a gente entendeu que quando observamos a questão das queimadas, pouco se fala da água.  A gente entende que os problemas das queimadas não só atacam o solo, mas também causam problemas nas espécies aquáticas. É claro que isso vai depender muito da proximidade de um local queimado de um rio. Se a distância for considerável, não é possível mensurar exatamente, e se não houver declividade também, dificilmente também vai haver esse transporte. A água pode ir correndo por ali e descer para o rio.  Agora, é claro que quando você queima, você diminui o atrito do solo com a água. Terá menos planta, então a água entrará mais fácil. 

O quanto se fiscaliza e estuda esse impacto das cinzas na água?

As questões dos níveis de consumo de água precisam ser analisado. Esse monitoramento em relação as cinzas das queimadas é muito pouco realizado. Já se fazia muito isso nos Estados Unidos e Europa por conta dos incêndios florestais que acontecem lá. O Cerrado tem queimadas anuais. Mas entendo que o monitoramento é pouco feito. 

Essa contaminação também chega ao mar? 

O impacto na água no mar seria diferente. Porque a água salgada tem uma composição totalmente diferente, não dá nem para a gente tentar extrapolar, porque a gente sabe que é muito diferente. Agora, chegar à água do mar pode, se tiver uma queimada próxima da costa, e na chuva, de alguma maneira, isso escoar superficialmente até a praia. Existem trabalhos científicos, principalmente no pessoal da Europa, e Portugal estuda muito isso, que trazem esse impacto no ambiente marinho.

Existem pontos de queimadas em diferentes pontos do país. Os efeitos das cinzas de queimadas do Pantanal chegam à Bahia? 

O que a gente pode dizer baseado no que já se existe de informação é que fumaça vai na direção do vento, que pode ser transportado até de um estado para o outro, em função da água. O Cerrado, e aqui estamos bem no centro do Brasil, é uma região de muitos nascentes, que contribuem para muitas áreas do Brasil. O que acontecem com a água aqui influencia a área de vários estados, inclusive a Bahia.

A temperatura pode ficar mais quente devido a essas cinzas? 

No período que há o fogo, nas regiões próximas, a temperatura pode subir. Agora depois que o fogo acaba, é difícil saber como isso permanece. O nível que isso permanece. É claro que quando você destruiu vegetação, teoricamente, você destrói uma condição de resfriamento, e deixa o solo mais exposto, e muda sistemas de resfriamentos e trocas. Queimadas são, reconhecidamente, prejudiciais às temperaturas. Mas [o impacto] das cinzas, não mensuramos. 

Entrevista publicada no CORREIO