15/05/2026 07h55
Foto: Divulgação
Ainda cercados por dúvidas sobre revenda e desvalorização, os carros elétricos começam a mostrar sinais de melhora no mercado de seminovos. Dados da plataforma Indicata apontam BYD Dolphin Mini, Dolphin e Song Pro entre os usados de até quatro anos com venda mais rápida no Brasil.
O levantamento faz parte do relatório Market Watch Brasil, publicado mensalmente pela empresa especializada em inteligência de mercado automotivo e remarketing. A análise utiliza um indicador chamado Market Days Supply (MDS), que mede a relação entre estoque disponível e ritmo de vendas. Em termos simples, quanto menor o número, mais rapidamente o carro encontra comprador.
Na edição mais recente do estudo, referente a abril de 2026, o BYD Dolphin Mini aparece com MDS de 15,1 dias, seguido pelo BYD Dolphin, com 15,8 dias, e pelo híbrido plug-in BYD Song Pro, com 17,9 dias. Todos figuram entre os modelos eletrificados usados de até quatro anos com maior velocidade de giro no país.
O dado chama atenção porque contrasta com uma percepção ainda comum no mercado brasileiro: a de que carros elétricos tendem a encalhar na revenda ou sofrer forte rejeição no mercado de usados. Pelo menos entre os modelos mais conhecidos no mercado, o movimento parece começar a tomar outro rumo.
Para efeito de comparação, os veículos usados de até quatro anos mais vendidos por volume no Brasil ainda são modelos tradicionais a combustão, como Chevrolet Onix (MDS de 48,1 dias), Hyundai HB20 (45,5 dias) e Volkswagen Polo (46,2 dias). Ou seja, apesar de venderem em maior quantidade, permanecem mais tempo disponíveis no estoque antes de serem negociados.
Isso não significa, porém, que o mercado de usados elétricos tenha atingido maturidade. O próprio estudo faz ressalvas importantes. Segundo a Indicata, a melhora da liquidez ainda está concentrada sobretudo nos elétricos de entrada e ocorre em um contexto no qual a oferta desses modelos permanece relativamente limitada. Locadoras e grandes frotistas, por exemplo, ainda possuem baixa participação de elétricos em suas operações, reduzindo a pressão de revenda no mercado secundário.
Na prática, isso significa que os atuais níveis de giro podem refletir não apenas maior aceitação do consumidor, mas também um estoque ainda controlado. A grande prova do mercado deve vir nos próximos anos, quando volumes maiores começarem a retornar ao mercado de usados após os primeiros ciclos de renovação de frota.
Outro ponto destacado pela Indicata é que a dinâmica não se repete da mesma forma nos modelos mais caros. Enquanto elétricos compactos e de preço relativamente acessível mostram demanda mais consistente, veículos de segmentos superiores seguem uma curva de adoção diferente, ainda mais dependente de fatores como financiamento, percepção de valor residual e confiança do comprador.
Há também fatores conjunturais ajudando os carros elétricos. O relatório aponta que a alta recente dos combustíveis pode ter recolocado o custo de uso no centro da decisão de compra, favorecendo a conta econômica dos veículos a bateria, inclusive no mercado de seminovos. Ainda assim, a própria consultoria pondera que esse efeito parece mais pontual do que estrutural, já que preço de entrada e financiamento continuam sendo barreiras relevantes para uma adoção mais ampla.
Ainda é cedo para afirmar que os carros elétricos já superaram o velho estigma da revenda difícil no Brasil. Mas os números sugerem uma mudança gradual de percepção: ao menos entre os modelos mais acessíveis, a liquidez no mercado de seminovos parece já não ser um problema tão grande quanto se imaginava.
Fonte: Inside Evs