Entrevista

Transporte público de Salvador ‘é um sistema morto’

Diz o arquiteto e urbanista especializado em transporte público e professor aposentado da Ufba, Francisco Ulisses

14/04/2021 21h00

Foto: Divulgação

Que a situação do sistema de transporte público em Salvador é grave, não resta dúvida. Além dos problemas habituais como o preço exorbitante da tarifa, insegurança e desconforto, os usuários estão tendo que enfrentar uma crise sem tamanho na mobilidade da cidade.

O caos sanitário causado pela pandemia também trouxe sérios prejuízos para os cofres das empresas que exploram o transporte na capital baiana. Tanto que a CSN, uma das três empresas que operam no modelo de Sociedade de Propósito Específico (SPE) – em vez de concessionária, como é conhecido – decretou impossibilidade de continuar prestando o serviço e precisou passar por intervenção da Prefeitura de Salvador para não deixar os passageiros que dependem das 60 linhas, que atendem a região de Mussurunga e parte da orla de Salvador sem o transporte.

Ao bahia.ba, o arquiteto e urbanista especializado em transporte público e professor aposentado da Ufba, Francisco Ulisses Santos Rocha, disse que, para evitar ainda mais transtorno e a paralisação total do sistema, é preciso mudanças urgentes.

Como sugestão, ele cita a imediata execução do plano de mobilidade de Salvador, do qual participou como coordenador. Além disso, ele também fala sobre a necessidade de união entre municípios, estados e união, e de uma gestão que integre a mobilidade em toda a Região Metropolitana. Confira a entrevista:

Na sua visão, qual é o maior problema  do transporte público hoje em Salvador?

O transporte está em crise no Brasil todo. A pandemia trouxe uma queda de demanda no início de 80% e hoje em Salvador gira em torno de 40%. Nós temos um modelo calcado no financiamento do transporte apenas na tarifa, então menos passageiros, menos receita. Isso gera um buraco, uma defasagem financeira enorme. Isso acontece em todo Brasil e Salvador não foge à regra. Não podemos sustentar apenas um sistema com a tarifa. É um modelo insustentável. Já está caduco há muito tempo. Não se pode deixar o passageiro sustentar todo o sistema. Se você analisar o modelo fora do Brasil, principalmente na Europa, o usuário paga apenas uma parte da tarifa, algo em torno de 40% a 50%, já aqui 100% é pago pela tarifa.

O governo federal deve intervir?

O sistema ferroviário é subsidiado, assim como o metrô de Salvador e como não existe subsídio no sistema sobre pneus, na hora que a receita cai a crise vem. O recente veto do presidente, que poderia trazer R$ 4 bilhões poderia ajudar.  Por algum motivo, o transporte é encarado como um serviço essencial, assim como a saúde e a segurança. Tem que haver uma ação geral de estados, municípios e governo federal para sanar o problema.

Como o senhor avalia o projeto de concessão que aconteceu em 2014? Foi um erro?

Eu acho que a gente já tinha um sistema que estava desfasado. Tinham 19 empresas trabalhando sobre um regime precário de permissão. Não tinha regras, a tarifa era definida pelo prefeito sem nenhum parâmetro claro. A concessão de alguma forma deu um salto de qualidade, reorganizou a cidade em três áreas geográficas, cada área começou a ser operado por uma SPE (Sociedade de Propósito Específico), que é feita especialmente para operar o transporte e quando acabar o contrato ela encerra as atividades. A concessão deu uma melhoria na qualidade, mas não resolveu os problemas estruturais. Em Salvador tivemos um avanço com outros modelos como o metrô. Hoje a política tarifária é uma política boa para o usuário, que pode pegar dois ônibus e um metrô com a mesma tarifa no período de 2 horas. Mas isso também repercute na questão financeira. O metrô fica com algo em torno de 60% e os ônibus com 40%, o que para gera uma redução na receita. Com esse modelo de usuário pagar os custeios, fica mais insustentável ainda.

É possível uma pane total no sistema de transporte de Salvador?

Nós já tivemos um sinal. Uma das três empresas já faliu, agora só temos duas. Cada empresa desse tem cerca de 700 carros, então é um peso significativo. Já aconteceu de algumas empesas falirem como a Ogunjá e a Ypiranga, mas cada empresa dessa não representava nem 10% do sistema. Hoje uma CSN representa 1/3 do sistema, então fica mais complicado de assumir uma possível licitação. Tem que se pensar em novas formas. Talvez a metropolização do sistema, deixar de ser apenas municipal. Porque hoje temos uma concorrência do sistema metropolitano, disputando passageiros na cidade. Tem muita coisa a ser pensada. Do jeito que está e da forma que está não pode continuar. Não podemos mais otimizar esse sistema, ele já está morto.

Uma crítica recorrente contra as empresas é a falta de transparência. Por que isso acontece?

As empresas não evoluíram em termos de gestão. Tivemos mudanças como a bilhetagem eletrônica, integração, multimodalidade, mas há também uma defasagem em termos gestão, assim como no poder público. É no momento de crise que a gente tem que encontrar novas alternativas. Vivemos a tempestade perfeita na mobilidade. Empresas ineficientes e queda de demanda acentuada. A pandemia agravou um problema que já existia. Aqui em Salvador foram vários Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) na tentativa de solucionar o problema, com intervenção do Ministério Público, mas chegou a um esgotamento completo. Agora é o momento de pensar diferente. Não adianta pensar em resolver o problema com as mesmas fórmulas. 

Como sanar o problema a curto prazo?

A curto prazo a Prefeitura está fazendo, que é assumir a área da CSN. As ações estão sendo tomadas. Temos que pensar no que fazer e ver quanto tempo isso vai durar. Podemos também incentivar mais corredores para ônibus, investir em informação e tecnologia, uso do big data, novas formas de contratação de empresas. Vimos experiências interessantes na América Latina como Chile e Colômbia, onde os contratos de concessão são divididos por dois, entre os fornecedores dos veículos e outro para o operador, esse é um caminho a ser seguido. Aqui a licitação é feita para a empresa comprar e operar os veículos. Além disso, os aplicativos tem que ser incorporados na rede e integrados com o sistema, assim como investimentos em mobilidade ativa, como a bicicleta e o pedestre, e incentivar a eletrificação da frota. Um passo importante é focar em um novo modelo de governança, com uma gestão única da mobilidade de dimensão metropolitana. Por que a tendência do sistema é esse, já temos um metrô de caráter metropolitano, assim como um monotrilho que vai ser integrado a uma rede metropolitana. Sair dos limites municipais é uma possibilidade. 

E a longo prazo, o que se pode fazer?

Existe um plano de mobilidade de médio a longo prazo, com horizontes diversos para os anos de 2025, 2032 e 2049. Em termos de propostas para mobilidade Salvador está muito bem servida. Nós temos um plano que muitas cidades do país não têm. Os planos estão aí, falta implantá-los. Podemos citar por exemplo, o BRT, o monotrilho do Subúrbio, como ideias do plano de mobilidade. Salvador está com todo o planejamento feito para a mobilidade. É claro que a pandemia trouxe mudanças, que talvez causem reflexo no padrão de mobilidade. A gente não sabe exatamente o que vai acontecer no pós-pandemia, o que o trabalho remoto e o medo de aglomeração podem gerar. Com certeza teremos mudanças e isso tudo tem que começar a ser pensando de alguma forma.

Entrevista publicada no bahia.ba