21/08/2026 09h43
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A política monetária restritiva do Banco Central (BC) chegou com força à economia neste segundo semestre, como mostram o avanço da inadimplência e dos pedidos de recuperação judicial, entre eles o da Casas Bahia, protocolado no domingo (16), com cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. Mesmo após quatro cortes que levaram a Selic de 15% para 14% desde março, os juros seguem restritivos, e a ausência de ajuste fiscal limita um alívio mais rápido, o que eleva o risco de crise de crédito e de recessão em 2027, alertam economistas do mercado financeiro.
“O impacto do juro demorou, mas chegou”, afirma Adauto Lima, economista para Brasil da gestora Franklin Templeton, que vê a economia brasileira muito alavancada, tanto nas empresas quanto nas famílias e no governo. O ambiente de juros ainda altos neste ano e no próximo, diz, aumenta o risco de uma crise de crédito capaz de derrubar a atividade nos próximos meses.
Lima estima uma chance de cerca de 20% de recessão em 2027, apesar de trabalhar com um cenário mais provável de crescimento de 1,5% do PIB. Mesmo nesse cenário base, avalia, o país pode registrar alguns meses de retração da atividade. Ele descarta, porém, uma queda abrupta como a que se seguiu ao governo Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, e fala em um ou dois meses de PIB mais fraco ou negativo.
Alerta no crédito
O impacto dos juros no crédito foi adiado pelo avanço do mercado de capitais no financiamento das empresas, muitas vezes com incentivos fiscais e custos menores, observa Lima. Somaram-se a isso mais cartões, novos tipos de consignado e o crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), que chegaram ao investidor final e ampliaram a oferta de recursos a famílias e empresas, compensando a retração das linhas bancárias.
Esse cenário de dinheiro farto já mostra sinais de retração, com a emissão de debêntures caindo 28,7% no ano até julho. A captação de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) recuou 23,5%, e a de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), 57,5%.
O mercado olha com preocupação a situação do crédito daqui para a frente. Lima já observa mais recuperações judiciais de empresas e mais famílias em atraso, sem que isso configure uma quebradeira generalizada. Mas a incerteza para 2027, avalia, vem do risco de o país sair desse período com a economia em processo de desalavancagem, já perdendo tração, e com uma política monetária que precisa seguir restritiva diante da inflação.
Nem mesmo o socorro do governo aos devedores tem ajudado, destaca o Citi em relatório. Segundo o banco americano, nem o aumento das transferências sociais nem os programas oficiais de ajuda reduziram a inadimplência, e a expectativa é de que os atrasos continuem piorando.
Desaceleração forte à vista
Lima observa que a economia já está perdendo força no terceiro trimestre e que o segundo semestre deve ser mais fraco. “Se isso se materializar, chegaremos a 2027 com a economia já crescendo 1,5% e fica a sensação de uma recessão ou desaceleração maior”, diz. Para ele, cortes de 0,25 ponto por reunião não alteram o quadro no curto prazo. “Quando colocamos os instrumentos de crédito recuando, alavancagem alta e dificuldade do BC de cortar juros, podemos ter uma ruptura que pode levar a um cenário de queda do PIB por alguns meses”, afirma.
Não se pode descartar a possibilidade de uma recessão no próximo ano, mas, aos olhos de hoje, o risco seria limitado, afirma Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos. “Talvez a gente observe em alguns trimestres variação negativa do PIB, mas de forma consecutiva, especialmente na visão anual, não é o cenário da casa”, diz. O que há é a expectativa de uma piora de atividade.
A XP trabalha com crescimento do PIB de 2% neste ano, desacelerando para 1% em 2027, com a redução dos estímulos fiscais e parafiscais e uma política monetária ainda contracionista, mesmo que em menor grau. A casa projeta Selic de 14% no fim deste ano e de 11,5% no fim do ano que vem.
As estimativas são mais conservadoras que a mediana do mercado. O Focus aponta Selic de 13,75% em dezembro de 2026 e PIB de 1,57% em 2027, ou seja, a XP embute a interrupção do ciclo de cortes já na reunião do Copom de setembro.
Margato cita ainda o elevado endividamento de empresas e principalmente das famílias como limite a um crescimento mais consistente da atividade, somado aos efeitos do El Niño sobre o agronegócio, à reforma tributária e às mudanças na escala 6×1, cuja proposta tramita no Senado e avançou nesta semana.
O ano de 2027 será muito difícil para o Brasil, acredita Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos. Para ele, o país está chegando a um limite da expansão fiscal, “mesmo para o lado político que tem esse viés mais gastador”, diz. Além disso, empresas e famílias estão muito alavancadas. “Tirando o anabolizante dos gastos públicos deste ano, o país pode entrar em um ambiente recessivo muito severo e similar ao que se viu a partir de 2015“, afirma.
A possibilidade de recessão dominou as conversas entre investidores e executivos do setor de varejo em evento promovido pela XP no Rio de Janeiro nesta semana. Segundo os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer, os investidores se mostraram focados em dados para analisar a dinâmica do segundo semestre de 2026 em meio a sinais de desaceleração do consumo. “As empresas reconheceram amplamente o cenário mais difícil, e a postura defensiva e a resiliência de cada modelo de negócio tornaram-se parte central das histórias apresentadas”, destacaram os analistas em relatório.
Saída pelo fiscal
Para Margato, o risco maior seria um choque de confiança negativo sobre a política econômica nos próximos anos, especialmente do lado fiscal. “Por exemplo, se não houver qualquer sinalização do próximo governo, qualquer que seja, de reformar as contas públicas, o prêmio de risco subiria e haveria um impacto mais severo sobre a confiança de investidores, de empresários, de consumidores”, diz. Nesse caso, poderia ocorrer queda na atividade combinada a uma alta do dólar e a pressão inflacionária, levando à chamada estagflação. “Esse não é nosso cenário base, mas a gente precisa monitorar”, diz.
O fiscal será decisivo para que a desalavancagem da economia não termine em recessão, concorda Lima. Um ajuste forte e crível pesaria sobre a atividade num primeiro momento, mas seria compensado pelo espaço que o BC ganharia para cortar juros mais rápido. “Em 2016, quando foi criado o teto de gastos, os juros longos caíram rapidamente e o BC conseguiu levar a Selic para 6,5% e aliviar o custo financeiro das empresas”, lembra.
O melhor cenário, na avaliação de Perri, seria os candidatos favoritos já sinalizarem disposição de fazer um ajuste, ainda que os cortes de gastos pesassem no curto prazo, como em 2016.
Para Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN, plataforma de investimentos da Unicred, as expectativas de mercado apontam mais para desaceleração, e não recessão. Mas reforça a importância da agenda fiscal, e lembra que o início de mandato costuma ser a janela ideal para que o governo implemente ajustes, aproveitando o capital político inicial antes de precisar focar em medidas de popularidade. “Se o governo avançar nessa agenda fiscal, o impacto tende a ser altamente positivo para a Bolsa”, diz.
Fonte: InfoMoney