Foto: Divulgação
Desde que foi criado o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) em 14 de novembro de 1975 o consumo do etanol, ou álcool etílico, popularmente conhecido simplesmente como álcool, passou a ser usado como combustível automotivo em substituição à gasolina. O Brasil tem a maior experiência mundial na fabricação do álcool e de motores de combustão interna movidos à álcool. A fabricação de etanol a partir de diferentes matérias-primas apresenta vantagens e limitações relacionadas ao rendimento, ao custo, ao clima, ao uso do solo e à tecnologia empregada.
A principal matéria prima é a cana-de-açúcar. As principais vantagens são as seguintes:
- alto rendimento de etanol por hectare;
- o caldo contém açúcares fermentescíveis diretamente, dispensando etapas complexas de conversão do amido;
- o bagaço pode gerar vapor e eletricidade para a própria usina;
- produz também açúcar, permitindo flexibilidade econômica;
- em geral, apresenta bom balanço energético e menores emissões que o etanol de milho.
Entre as desvantagens pode-se citar:
- exige clima quente e disponibilidade de água;
- a produção pode estimular monoculturas e perda de biodiversidade;
- pode haver compactação e degradação do solo pelo tráfego de máquinas;
- a expansão desordenada pode competir com outras culturas e áreas naturais;
- a colheita e o transporte dependem de infraestrutura adequada.
A fabricação do etanol a partir do milho em larga escala foi introduzida no Brasil recentemente. Apresenta as seguintes vantagens:
- pode ser armazenado por longos períodos, garantindo matéria-prima durante todo o ano;
- a tecnologia de produção é bem desenvolvida em países como os Estados Unidos;
- o farelo ou grãos secos de destilaria, subproduto da produção, pode ser usado na alimentação animal;
- aproveita estruturas já existentes de processamento de grãos. As principais desvantagens são:
- o amido precisa ser convertido em açúcares antes da fermentação, tornando o processo mais complexo;
- geralmente apresenta menor rendimento energético por hectare que a cana-de-açúcar;
- exige grande quantidade de energia, água e insumos agrícolas;
- pode competir com a produção de alimentos e rações;
- a produção intensiva pode provocar erosão, contaminação da água e dependência de fertilizantes.
O Brasil é o maior produtor mundial de sisal (agave) e a Bahia produz cerca de 80% da produção nacional. A tecnologia para produção de álcool a partir do sisal, bem como e introdução de novas práticas de plantio, colheira e desfibramento, estão sendo desenvolvidos dentro do Projeto Brave, liderado pela Shell em parceria com o Senai-Cimatec e a Unicamp. O sisal contém uma substância conhecida como inulina que por fermentação pode ser transformada em álcool.
As principais vantagens são:
- é resistente à seca e adapta-se a regiões semiáridas e a solos relativamente pobres;
- necessita, em geral, de menos água que a cana e o milho;
- pode aproveitar áreas pouco adequadas para outras culturas;
- pode gerar renda em regiões com poucas alternativas agrícolas; o agave tequilano pode ser usado na fabricação da tequila, bebida popular no México.
Entre as desvantagens pode-se citar:
- o crescimento é lento e a primeira colheita demora aproximadamente três anos;
- o rendimento de etanol por hectare pode ser limitado, dependendo da espécie e do processo;
- o sisal é tradicionalmente valorizado pela fibra e destiná-lo ao etanol pode reduzir a oferta desse produto.
A Petrobras chegou a construir uma usina de fabricação de álcool a partir da mandioca em Curvelo, Minas Gerais. O desinteresse veio pela falta da produção de mandioca na região. Se tivesse escolhido Cruz das Almas, região produtora de mandioca e onde está localizado o Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura Tropical, da Embrapa, o projeto não teria fracassado. Entre as vantagens relaciona-se:
- é uma cultura rústica, adaptada a diferentes solos e condições climáticas;
- possui elevado teor de amido, que pode ser convertido em açúcares fermentáveis;
- pode ser cultivada por pequenos produtores e gerar atividade econômica regional;
- as raízes e os resíduos do processamento podem ser aproveitados para etanol;
- exige menos tecnologia agrícola que algumas culturas mais intensivas.
Entre as desvantagens:
- o amido precisa passar por etapas de cozimento, liquefação e sacarificação, aumentando o custo do processo;
- o rendimento por hectare pode ser inferior ao da cana em determinadas regiões;
- pode competir diretamente com a alimentação humana;
- as raízes são perecíveis e precisam ser processadas rapidamente após a colheita;
- o processamento gera efluentes que precisam de tratamento adequado.
A sustentabilidade de cada alternativa depende não apenas da matéria-prima, mas, também, do manejo agrícola, da origem da energia usada na usina, do consumo de água, do transporte e do destino dos resíduos.
Adary Oliveira - engenheiro químico e professor (Dr.)
O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos seus autores. Não representa exatamente a opinião do MODAIS EM FOCO.